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Líder mundial em reservas, petróleo venezuelano precisa de refino complexo

Líder mundial em reservas, petróleo venezuelano precisa de refino complexo

Entenda por que a Venezuela responde por menos de 1% do mercado mundial de petróleo, embora detenha a maior concentração de reservas

A Venezuela concentra cerca de 303 bilhões de barris de petróleo, quantidade que representa 19% das reservas globais conhecidas, segundo estimativa da Administração de Informação Energética (EIA). Apesar de ter a maior reserva do mundo, o país responde por menos de 1% do mercado mundial de petróleo. Reflexo não somente de sua estrutura de refino deteriorada, mas também da complexidade de seu petróleo, que é extrapesado, ácido e rico em enxofre, de acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

A capacidade de produção da Venezuela atingiu 3,4 milhões de barris por dia em 1998, de acordo com Britannica, referência global em tecnologia em educação. Na época, essa quantidade correspondia a 5% da produção mundial. No ano passado, a produção caiu para 900 mil a 1,1 milhão de barris por dia. A revista diz que, ao longo das décadas, a má gestão da extração, a imposição internacional de sanções econômicas e os investimentos em outras fontes de energia também ajudam a explicar a queda da participação venezuelana.

Segundo a Britannica, o principal desafio enfrentado pelo país sul-americano é o fato de grande parte do seu petróleo ser pesado e caro de extrair. Parcela considerável do recurso natural fóssil localizado na Faixa do Orinoco, região oriental da Venezuela que cobre 52 mil km², não é facilmente comercializável diretamente da terra. Além do impacto financeiro, as propriedades do petróleo venezuelano também demandam equipamentos e tecnologias avançadas, estrutura precária nas refinarias de lá, diz.

O petróleo bruto é muito utilizado na produção de asfalto, mas a sua transformação em produtos mais lucrativos, como gasolina, requer um processo de refino mais longo. Conforme a revista digital, refinarias localizadas no Golfo do México e nos EUA têm esse potencial, diferentemente do atual porte das venezuelanas. A publicação explica ainda que petróleos brutos e pesados rendem quantidades menores de gasolina, diesel e outros combustíveis, do que os óleos mais leves.

A Britannica afirma que a acidez elevada do recurso natural fóssil da Venezuela decorre de seu alto teor de enxofre. Isso aumenta o risco de corrosão em cascos de navios-tanque, tubulações, oleodutos e tanques de armazenamento, o que exige materiais mais resistentes das empresas de transporte, manutenções constantes e substituições mais frequentes de peças. 

 

Controle técnico determina segurança e valor comercial do petróleo

As propriedades do recurso natural venezuelano ainda exigem das empresas petrolíferas controle total de qualidade. Robson Ferreira, engenheiro-químico e especialista técnico da Biovera – empresa referência em comercialização e manutenção de equipamentos de laboratório –, explica que a etapa é feita por meio de um conjunto de análises físico-químicas e instrumentais, que são administradas desde a produção, transporte, refino até a comercialização do petróleo pesado e bruto. 

 

De acordo com Ferreira, “o objetivo é garantir segurança operacional, conformidade normativa e valor comercial do produto”. O profissional ainda destaca que, após ser transportado para as refinarias, o óleo cru passa por um processo de separação, denominado destilação fracionada, e as frações obtidas passam por outras análises físico-químicas e instrumentais.

O controle de qualidade é realizado nas plataformas e envolve análises preliminares que definem o valor comercial do petróleo. Segundo o engenheiro-químico, “dentre essas análises, podemos citar a de BSW, quando ocorre a determinação de água e sedimentos presentes no petróleo bruto. A técnica empregada é chamada de centrifugação e utiliza um equipamento denominado centrífuga, acrescenta o profissional.

Ainda conforme Ferreira, “a técnica de destilação fracionada pode ser realizada também a nível de laboratório, por meio de destiladores, e garante o controle efetivo das faixas de temperatura de ebulição para obtenção das frações com maior pureza.” Os procedimentos permitem identificar desvios, corrigir problemas rapidamente e assegurar que o produto final atenda às especificações técnicas e ambientais exigidas.

De acordo com o estudo “Processo de produção de petróleo”, publicado na revista científica FT, processos administrados na indústria petrolífera exigem diferentes equipamentos de alta qualidade, que podem ser utilizados ao longo da cadeia produtiva. Dados indicam que os agitadores mecânicos são utilizados no preparo e na homogeneização de amostras de petróleo e derivados. 

O equipamento permite misturar líquidos de diferentes viscosidades e incorporar aditivos de forma controlada. Isso tende a garantir maior uniformidade nas análises. Com controle de rotação, o equipamento contribui para a padronização dos testes físico-químicos e para a confiabilidade dos resultados no controle de qualidade.

Já o Ultra Turrax é um equipamento empregado quando há necessidade de dispersões mais finas e estáveis, especialmente em sistemas com fases imiscíveis ou partículas sólidas. Atuando por alto cisalhamento, o equipamento promove emulsificação eficiente e redução do tamanho de partículas. O seu uso permite a ampliação da precisão das análises e reforça a qualidade dos ensaios laboratoriais, reforça.

Produção sem supervisão e investimento gera emissões perigosas ao planeta

Especialistas ouvidos pelo The New York Times, renomado jornal dos Estados Unidos, explicam que as produções de petróleos pesados, como os da Venezuela, podem gerar três a quatro vezes mais gases de efeito estufa do que a geração convencional. Descrevem que o metano é um potente gás de efeito estufa que vaza das operações de petróleo e gás, sendo liberado intencionalmente nas refinarias junto ao dióxido de carbono. Esse processo de queima de gás natural é conhecido como flaring.

Segundo o jornal, apesar do declínio da indústria petrolífera da Venezuela desde os anos 1990, os seus índices de queima de gás aumentaram drasticamente. Isso a tornou uma das maiores fontes de emissões de metano no mundo. Os especialistas ouvidos pelo jornal alertam que este gás retém cerca de 80 vezes mais calor na atmosfera do que o dióxido de carbono no curto prazo, sendo responsável por quase um terço do aumento das temperaturas globais desde o início da Revolução Industrial.

A reportagem diz que o flaring é utilizado na Venezuela há anos, mas a combinação entre a infraestrutura de refino insuficiente e casos de corrupção levaram o país a queimar ainda mais gás em vez de coletá-lo e utilizá-lo adequadamente. Para Jason Bordoff, diretor-fundador do Centro de Política Energética Global da Universidade da Columbia, a Venezuela liberou mais de 40% de seu gás, o que seria “um número insano”.

Instalações localizadas nos Estados Unidos, sobretudo na Costa do Golfo, foram projetadas para processar petróleo pesado importado. A operação mais eficiente dessas refinarias garante maior produção de diesel e margens mais elevadas. A proximidade geográfica com a Venezuela reduz custos logísticos e torna o fornecimento ainda mais atrativo para o mercado estadunidense. 

A riqueza natural fornece à Venezuela relevância geopolítica em meio às disputas internacionais por segurança energética. O interesse de governos estrangeiros pelo país pode ir além da preocupação com a condição socioeconômica e sinalizar questões econômicas individuais. Mudanças significativas na gestão do petróleo poderiam gerar impactos diretos nos preços internacionais e nas relações diplomáticas multilaterais.

Tiago Silva Candido

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