Psicólogo Rafael Ambrosio de Lima explica quando o envolvimento começa a comprometer a rotina
Perder o sono para acompanhar notícias, interromper o trabalho para conferir atualizações e evitar encontros por divergências políticas são sinais de que o debate público pode estar ocupando espaço demais na vida pessoal. O problema merece atenção quando a preocupação com os rumos do país se torna persistente e começa a comprometer o descanso, a convivência e as atividades cotidianas.
Para o psicólogo Rafael Ambrosio de Lima, a incerteza sobre o futuro, a sensação de impotência e o medo de que decisões políticas tragam prejuízos à própria vida ajudam a explicar esse desgaste. Na avaliação do especialista, as discussões também podem afetar a vida social, provocando estresse e afastamentos motivados por discordâncias. “Quando uma opinião política é percebida como parte da identidade da pessoa, uma discordância sobre determinado tema pode ser interpretada como um ataque, uma crítica ou rejeição pessoal”, afirma.
Pesquisas dimensionam o desgaste
O relatório Stress in America, da Associação Americana de Psicologia, oferece uma medida dessa preocupação nos Estados Unidos. Entre 3.305 adultos ouvidos em agosto daquele ano, 69% apontaram a eleição presidencial como uma fonte significativa de estresse. O percentual era de 52% em 2016 e 68% em 2020. No levantamento de 2024, 32% também relataram tensão entre familiares causada pelo clima político. Outro trabalho, publicado na revista PLOS ONE pelo pesquisador Kevin B. Smith apontou que cerca de 40% dos adultos identificaram a política como uma fonte significativa de estresse. As respostas também incluíram perda de sono, fadiga e dificuldade de parar de pensar no assunto. No conjunto, os indicadores permaneceram elevados e relativamente estáveis entre os períodos analisados. Esses resultados descrevem experiências relatadas nos Estados Unidos e não podem ser transferidos diretamente para a população brasileira. Tampouco significam que todos os entrevistados tenham transtornos de ansiedade ou depressão: sentir estresse e receber um diagnóstico clínico são situações bem distintas.
Além das disputas eleitorais, pesquisadores têm investigado os efeitos da política no cotidiano. Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology acompanhou inicialmente 198 norte-americanos por duas semanas e replicou os resultados com outros 811 participantes durante três semanas. Emoções negativas ligadas aos acontecimentos políticos estiveram associadas a pior bem-estar físico e psicológico no dia a dia. A pesquisa também encontrou uma tensão relevante: estratégias que reduziam emoções negativas, como distrair-se do noticiário ou reinterpretar os acontecimentos, podiam diminuir a motivação para agir em causas políticas. O resultado sugere que proteger o bem-estar e preservar a participação pública exige equilíbrio.
O noticiário acompanha a pessoa durante o dia
Rafael observa que as redes sociais mudaram a forma de acompanhar os acontecimentos. Em vez de reservar um momento para se informar, a pessoa pode permanecer exposta a atualizações e debates ao longo de todo o dia. “O fluxo contínuo de notícias, debates e conteúdos políticos nas redes sociais pode contribuir para a ansiedade, a irritabilidade e a sensação de sobrecarga principalmente porque mantém a pessoa em contato quase permanente com estímulos potencialmente estressantes”, explica.
Quando a divergência ameaça os vínculos
Segundo o psicólogo, o diálogo depende de distinguir a discordância de um ataque e de respeitar os limites de quem participa da conversa. “Também é importante as pessoas entenderem os limites do outro e aceitarem que as conversas não necessariamente vão resultar na mudança do ponto de vista do outro.”
A autonomia para formar opiniões também entra nessa discussão. Rafael sugere observar como se reage ao contraditório e perguntar se o próprio posicionamento seria o mesmo fora do grupo de convivência. Essa reflexão pode ajudar a reconhecer a influência da pressão social e das emoções sobre as escolhas individuais.
Sono e rotina indicam a hora de estabelecer limites
Dormir menos para acompanhar atualizações, demorar a adormecer pensando nos acontecimentos ou acordar durante a noite para procurar notícias são exemplos citados pelo especialista. Queda na produtividade e redução de atividades físicas e de lazer também merecem atenção.
Entre os limites propostos por Rafael estão reservar momentos específicos para se informar e selecionar poucos portais confiáveis. A organização do consumo de notícias pode reduzir a exposição repetitiva sem impedir o acompanhamento dos assuntos de interesse público.
O psicólogo ressalta ainda que frustração, medo, alívio ou esperança diante de resultados eleitorais podem fazer parte da experiência. “Uma primeira estratégia é reconhecer a emoção sem tentar eliminá-la imediatamente”, orienta.
A necessidade de apoio deve ser considerada quando o sofrimento se prolonga ou interfere na vida diária. “A busca por um profissional de saúde mental pode ser especialmente importante quando o sofrimento persiste ou começa a comprometer o funcionamento cotidiano”, conclui.
