Ator assume o papel principal de “Jorge Pra Sempre Verão” em Salvador e relembra como o apelido usado para ofendê-lo durante a infância se transformou em um dos trabalhos mais importantes de sua carreira
Durante anos, Leonardo Garcez ouviu o apelido “Vera Verão” como uma forma de bullying. Ainda criança, antes mesmo de compreender completamente a própria sexualidade, era assim que colegas de escola tentavam diminuí-lo. No entanto, o que antes representava medo e insegurança hoje ganha um significado completamente diferente. Aos 30 anos, o ator, que já esteve em 3% (Netflix), No Mundo da Luna (MAX), Maníaco do Parque (Prime Video) e mais, agora interpreta Jorge Laffond, criador da icônica personagem Vera Verão, no espetáculo Jorge Pra Sempre Verão, em cartaz em Salvador entre os dias 25 de julho e 02 de agosto, dando continuidade ao legado do astro.
Leonardo lembra que, para ele, o ataque carregava dois preconceitos ao mesmo tempo. “Era uma tentativa de ofensa dupla. Por eu ser preto e por ser gay. Durante muito tempo aquilo me causou medo, insegurança e muita tristeza. Hoje eu entendo quem o Jorge foi para o Brasil e para mim. Voltar ao palco como ele é uma forma de mostrar que eles estavam errados e que ser comparado a ele, jamais será ofensivo.”
Segundo o ator, revisitar essa história também permitiu compreender como Jorge Laffond ocupou um espaço importante na televisão brasileira em uma época em que a representatividade ainda era extremamente limitada.
“A gente vê o quanto o racismo e o preconceito são danosos. Hoje eu consigo entender a importância que ele teve para abrir caminhos. Interpretar o Jorge também é um processo de cura.”
Muito além de Vera Verão
A preparação para o espetáculo foi construída a partir de entrevistas, livros, registros audiovisuais e relatos de pessoas que conviveram com Laffond, além de contar com a preparadora Érica Ribeiro. Leonardo conta que o principal objetivo nunca foi reproduzir a personagem conhecida pelo público, mas encontrar o homem por trás dela.
“A Vera já é muito conhecida. O que eu queria entender era quem era o Jorge quando as câmeras desligavam.” Foi durante essa pesquisa que descobriu um aspecto de Laffond que mais o marcou.
“No fundo, ele só queria ser amado. Quando a gente pensa em pessoas pretas, principalmente pessoas LGBTQIA+, muitas vezes o amor também nos é negado. Eu sou casado com um homem preto e, estudando a vida do Jorge, percebi que, apesar de todo o talento e reconhecimento, ele buscava justamente esse acolhimento.”
Para Leonardo, interpretar Laffond acabou se tornando uma forma simbólica de devolver esse reconhecimento. “Hoje eu me sinto uma continuidade dessa história. É como se eu pudesse acolher o Jorge e ajudar a manter vivo o legado dele.”
Um papel que chegou quatro anos depois
O primeiro contato de Leonardo com o espetáculo aconteceu ainda em 2022, quando participou da seleção para interpretar Jorge Laffond. Na época, outro ator foi escolhido e o projeto seguiu seu caminho. Quatro anos depois, uma ligação mudou completamente os planos.
“O personagem voltou para mim. Às vezes a gente acha que perdeu uma oportunidade, mas ela só estava esperando o momento certo.” Como assumiu o protagonista há pouco mais de um mês, precisou acelerar toda a preparação. Além de decorar o texto, aprender todas as marcações e coreografias do espetáculo e assumir a responsabilidade de construir o seu Jorge Laffond, Leonardo também enfrentou o desafio inédito de aprender a andar de salto alto.
Enquanto aguardava a chegada da bota do figurino, chegou a ensaiar com um par emprestado pelo pai de santo, exatamente o mesmo número do ator. “Foi um presente da espiritualidade”, resume. “Nunca tinha andado de salto. Parece um detalhe, mas muda completamente o corpo. A forma de caminhar, de ocupar o espaço, de respirar. Quando tudo começou a fazer sentido fisicamente, o personagem também começou a aparecer.”
O teatro como refúgio
A relação de Leonardo com a arte começou ainda na infância, na Vila Guacuri, bairro onde nasceu, por meio do projeto social Circo das Artes. Filho de uma educadora e cabeleireira que atuava no espaço, cresceu frequentando oficinas até descobrir o teatro, onde encontrou um ambiente completamente diferente daquele vivido na escola.
“O teatro foi meu refúgio. Enquanto a escola era um ambiente muito hostil, era ali que eu podia criar, brincar e descobrir quem eu era.”
Depois vieram os cursos de cinema, teatro e audiovisual e produções como 3% (Netflix), No Mundo da Luna e B.A.: O Futuro Está Morto (HBO Max), além dos longas Behind You, Vale Night e Maníaco do Parque (Prime Video), além de campanhas publicitárias para grandes marcas como Sadia, 99, Google e Mc Donalds. No teatro, atuou em espetáculos como Ensaio para o Baile, Dom Quixote de La Mancha, Sonho de uma Noite de Verão e Quando Anoitece. Ainda assim, o ator afirma que a carreira vive apenas o começo.
“O meu personagem dos sonhos é o próximo. Quero continuar contando histórias que tenham propósito e que façam sentido para quem eu sou.”
Ao falar sobre o espetáculo, Leonardo diz que pensa especialmente nos jovens que estarão na plateia e talvez estejam vivendo hoje conflitos semelhantes aos que enfrentou durante a infância.
“Quero que esses meninos saiam do teatro se sentindo abraçados. Que entendam que muitas pessoas vieram antes deles para abrir caminhos e que eles não precisam esconder quem são. O Jorge fez isso por muita gente. Agora é a nossa vez de continuar essa história. O futuro vai ser lindo!“.

