Today domingo, 8th fevereiro 2026
Imprensa e Mídia

Notícias de Uberlândia, Brasil e Mundo

Empatia não está ausente em pessoas com TEA

Empatia não está ausente em pessoas com TEA

Revisão científica indica que o déficit no TEA não é a falta de sentimentos, mas a dificuldade em interpretar sinais sociais e expressões faciais

Foto: Freepik

Uma revisão integrativa que analisou 26 estudos científicos derrubou a crença de que pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não têm empatia. Os trabalhos, recuperados nas bases PubMed, ERIC e PsycINFO, identificaram que o problema não é a ausência de sentimentos, mas a dificuldade em interpretar sinais sociais.

O principal achado aponta para uma possível dissociação entre os dois componentes da empatia. A cognitiva, que envolve a capacidade de inferir a emoção ou o estado mental de outra pessoa, pode ser reduzida em pessoas com TEA. Já a empatia afetiva, a capacidade de compartilhar ou vivenciar a emoção dos outros, não apresenta o mesmo déficit. 

Dos 26 estudos analisados, 65,4% focaram em adultos diagnosticados com TEA, enquanto 19,2% trabalharam com crianças e 15,4% com adolescentes. Metade das pesquisas utilizou o Quociente de Empatia (QE), questionário de autoavaliação desenvolvido por Baron-Cohen e colaboradores em 2004, como principal instrumento de medição. 

Os artigos representam 14% das 180 publicações inicialmente recuperadas nas bases de dados. De acordo com os critérios da pesquisa, foram analisados apenas estudos empíricos que abordassem as relações entre empatia e TEA, indexados entre 2005 e 2020. A revisão é fruto do trabalho de pesquisadoras do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Dificuldade está em ler emoções, não em vivenciá-las

A empatia cognitiva exige que a pessoa reconheça expressões faciais, tom de voz e gestos para entender o que o outro sente. Estudos incluídos na revisão demonstraram que adultos com TEA têm prejuízos na tomada de perspectiva cognitiva, mesmo com Quociente de Inteligência (QI) elevado.

Um estudo publicado na revista Scientific Reports, em 2024, avaliou 34 pessoas autistas e 33 com desenvolvimento típico através do Teste de Empatia Textual. A pesquisa identificou que a reatividade emocional alterada medeia o déficit empático no autismo.

A empatia afetiva, por outro lado, permanece intacta. Pesquisas com crianças de seis e sete anos diagnosticadas com TEA mostraram níveis mais baixos de empatia cognitiva avaliada por pais e professores, mas níveis semelhantes de empatia afetiva quando comparados ao grupo controle. Essa distinção entre os dois tipos de empatia orienta intervenções realizadas em clínica para autismo em Niterói e outras cidades do país.

“Pessoas no espectro podem sentir emoções profundas, se sensibilizar intensamente com o sofrimento alheio e demonstrar cuidado genuíno, ainda que isso não aconteça pelos códigos sociais tradicionalmente esperados”, explica a Rafaela Prudencini, Diretora Clínica ABA da clínica de neurodesenvolvimento Espaço Cel.

“Quando compreendemos o TEA a partir de uma perspectiva do neurodesenvolvimento, passamos a reconhecer que há formas diversas e legítimas de se conectar emocionalmente”, destaca a especialista.

 

Testes padronizados permitem a comparação entre estudos

O Quociente de Empatia (QE) apareceu em 13 dos 26 estudos analisados, o que corresponde a 50% das pesquisas. O instrumento analisa características individuais da empatia, abrangendo suas dimensões cognitiva e afetiva, reconhecimento de emoção e atribuição de intenção.

Outro instrumento frequente foi o Quociente do Espectro Autista (AQ), utilizado em 17 dos 26 estudos (65,4%). O questionário mensura o TEA em diferentes níveis, partindo do princípio de que essas características variam de intensidade em cada indivíduo.

Pesquisas também utilizaram o Índice de Reatividade Interpessoal e o Índice de Empatia de Bryant. Um estudo aplicou o Multifaceted Empathy Test (MET) para avaliar a empatia em seus componentes afetivos e cognitivos.

Segundo a revisão, as bases de dados selecionadas recuperam a maior parte das publicações sobre o TEA. Apesar disso, a busca por termos em português não trouxe resultados, e não foram identificados artigos publicados em plataformas brasileiras, o que evidencia uma lacuna de estudos nacionais sobre o tema específico.

Homens podem apresentar maior déficit cognitivo

A maioria das pesquisas indica um perfil predominantemente masculino para o déficit de empatia. Parte das pesquisas demonstraram dificuldades na tomada de perspectiva cognitiva dos outros, indicando déficits no gênero masculino nesse componente da empatia. Crianças com TEA tenderiam a um perfil “hiper masculinizado”, independentemente do sexo.

Alguns estudos, no entanto, não encontraram diferenças significativas. Uma pesquisa verificou que, apesar das mulheres demonstrarem mais empatia cognitiva e afetiva, não houve diferença estatística ao comparar homens e mulheres com TEA nos valores gerais dos testes aplicados.

Uma das explicações para essa disparidade é que as diferenças de gênero no comportamento social podem ser atribuídas aos papéis tradicionais. Espera-se que mulheres demonstrem habilidades sociais mais fortes, somado ao fato de que a prevalência de diagnósticos de TEA é muito mais elevada na população masculina.

Treinamento melhora resposta empática

Intervenções focadas no ensino de responsividade empática mostraram resultados positivos. Um estudo ensinou respostas empáticas a quatro crianças com TEA através de vinhetas com bonecos que demonstravam vários tipos de emoções. Aumentos na resposta empática ocorreram sistematicamente com a introdução do tratamento em todos os participantes.

Outra pesquisa desenvolveu uma intervenção para crianças com TEA visando o treinamento da Teoria da Mente como forma de ensinar responsividade empática. As sessões sempre tiveram a mesma estrutura: discussão, exercícios, resumo da reunião para os pais e apresentação de dever de casa.

O treinamento focou tópicos como reconhecimento de emoção, fingimento, crença falsa e humor. As sessões foram ministradas em um centro psiquiátrico, para cinco ou seis crianças simultaneamente, com diferença mútua de idade não superior a três anos. O grupo que passou pela intervenção de Teoria da Mente demonstrou melhoras na compreensão empática ao final do processo.

 

Tiago Silva Candido

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Leia também x